livros

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A mais aberta
Jonas Samudio
Cas’a’screver
Belo Horizonte, 2017

Às 22 horas e 22 minutos de uma noite esquiva e sem beleza, o Anjo das Palavras conduziu-me à porta aberta do livro. Entrei e, depois de três passos, virei-me para despedir-me do anjo, que continuava do lado de fora, em estado de espera. E retomei a caminhada, seguindo o ritmo sinuoso das palavras do livro.
Já na primeira página, avistei a mulher, em sua solidão. Ela estava sentada, com a cabeça sobre o amparo das almofadas, com a saia e os véus derramados sobre o divã de veludo vermelho. Quando me viu, arrumou os ombros e, com sabedoria lírica, sorriu. Em resposta, perguntei-lhe quem era.
“eufêmea”, disse. Sua voz possuía “uma intensidade mínima, mas vibrava”. Com um movimento da mão direita, afastou a mecha de cabelos negros que lhe caíra sobre os olhos. Em seguida, convidou-me a ouvir os versos escritos na página onde nos encontrávamos. E, abrindo-se em luz, leu:

“luminosidade das
palavras,
uma memória branca

e a prece nela se entendendo nua”

O gesto de puxar a saia em direção ao colo fez-me baixar os olhos em direção aos seus pés nus. Aos poucos, panos e véus deixaram-me entrever a lisura branca de suas pernas, e “a porta entreaberta de suas pernas ampliou a visão” de seu corpo luminoso. Foi quando me rendi ao desejo de “colher o seu enigma” e nele perder-me “para tocar o intocável”.
Num relance, vi: a mulher tinha “uma grande fuga tatuada em sua perna, tão branca”.
Essa visão levou-me a imaginar a dor que ela deve ter sentido ao fazer aquela tatuagem. Uma dor no esplendor da pele, para além do ardor.
Eu pouco sabia de eufêmea. Por isso, decidi mergulhar no livro em que ela se enredava. Nesse mergulho, vi que, com sua “intimidade aberta ao mundo, exposta sem reserva”, a mulher era o próprio poema. – Maria Esther Maciel


CAPA LIVRO MARCA DÁGUA
Marca d’Água
Elizabeth Gontijo
Cas’a’screver
Belo Horizonte, 2017

“Poesia é palavra em estado de arte. Não é fácil explicar porque certas combinações de palavras provocam uma emoção, que outras não produzem. No texto poético, é importante observar três aspectos: o que se diz (logopeia), as imagens (fanopeia), que dão a ver tal conteúdo e os sons (melopeia), que potencializam o que foi dito. Nas palavras de Octávio Paz: “O poema é feito de palavras, seres equívocos que, se são cor e som, são também significado”. Há mais um dado fundamental: o bom poema não pode entregar facilmente suas possibilidades significativas. Estas devem ser extraídas, com esforço e talento, pelo leitor. A palavra é metade de quem escreve e metade de quem lê.
(…)
A poesia não depende do tema e sim da capacidade (do poeta) de construir estruturas significativas, que dão vida própria ao que, de outro modo, só se exprimiria de modo banal. O poeta transforma o leitor em inspirado. Foi o que me aconteceu lendo os poemas deste livro. Espero que os pequenos aperitivos que servi aos eventuais leitores abra-lhes o apetite estético para fruirem os demais poemas de MARCA DÁGUA.” –   Antônio Sérgio Bueno


Capa geografia particular
Geografia particular
Inês Campos
Cas’a’screver
Belo Horizonte, 2017

“Geografia Particular cartografa, com leveza e humor, os espaços perdidos, desenhando, com eles, uma espécie de inventário de cidades imaginárias. Como uma viajante que se lança ao desconhecido, Inês parece carregar, nas mãos, o peso e a delicadeza de uma vida que se espalha por lugares invisíveis. 
Somos conduzidos, por entre as folhas deste caderno, a lugares precisos que vão, pouco a pouco, tornando-se imprecisos pelo efeito da escrita. Como se o gesto de cartografar paisagens, operado pelo poema, desmanchasse e deslocasse a própria paisagem que se cartografa, dando passagem ao mínimo poético que existe nas coisas. Cartografar sem apreender. Cartografar desmanchando lugares, tornando invisíveis as linhas que os definem, imprecisas na sua decisão de conter o mundo, e transpondo-o, a cada vez, para uma outra geografia. Geografia do poema partido nas folhas que compõem um caderno: “onde o texto aprende a materialidade do lugar por onde corre”.” – Janaina de Paula


capa-novo-dicionario
Novo dicionário de migalhas da psicanálise literária
Vania Baeta (org.) / Prefácio por Lucia Castello Branco / Posfácio por Janaína de Paula
e-book gratuito
Cas’a’screver
Belo Horizonte, 2016

“Poderíamos começar pela palavra “acídia”. E diríamos que este dicionário, como tantos outros, é habitado por uma certa melancolia do excesso: fazer caber, em quarenta e sete verbetes, nosso desejo de reunir, em torno da mesa farta, a literatura e a psicanálise. (…) Rapidamente perceberemos que se trata de um dicionário imperfeito, incompleto. Afinal, nele não coube nem mesmo o verbete “inconsciente”! E assim talvez devêssemos seguir, respeitando a sequência arbitrária da ordem alfabética, para só mais adiante pousar no “sonho”.”  – Lucia Castello Branco

“Seria possível vislumbrar, na forma de composição do sonho, um mosaico de citações? Pois o sonho, via régia do inconsciente, segundo Freud, constitui-se como uma outra cena composta de restos — restos diurnos —, fragmentos urdidos de forma a apresentar um conteúdo, conteúdo manifesto, que guarda outro, conteúdo latente, no qual o desejo inconsciente pode, às vezes, vir à luz. O texto assim configurado obedece a uma lógica do rébus, cuja leitura exige uma espécie de transliteração.”  – Vania Baeta

Este dicionário de citações é fruto de cinco anos de um trabalho empenhado em experimentar uma possibilidade outra de encontro entre literatura e psicanálise que levasse em conta o que, a partir de Jacques Lacan, denominamos de “Prática da letra”. Acesse gratuitamente o e-book em pdf.


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Nenhum orvalho sobre a cidade
Lucia Castello Branco / Tradução Paul Avilés
Cas’a’screver
Belo Horizonte, 2016

“Este livro é, por um fio, a matéria mínima de que se tece uma vida. Um fio de água estreito, escavado na paisagem, como uma trilha que vai escandindo. Ou o fio, depois da última gota: menos ainda, depois de nem uma gota. (…) Nos intervalos que aguçam a solidão, em que se “renuncia à língua”, mas não ao poema, as fotografias, em companhia das letras, adensam as fotografias; as letras em companhia das fotografias, adensam as letras. Nesse espaço de ressonâncias – entre a imagem que guarda a potência em seu ponto cego e a palavra que ressoa o que em si silencia – coexistem “a noite, sem nenhum orvalho sobre a cidade”, e a “cidade, sem nenhum padecimento da noite”, atritando-se em “faísca de luz”.”   – Erick Costa


janaina-de-paula
Cor’p’oema Llansol
Janaina de Paula
Cas’a’screver
Belo Horizonte, 2016

“”Um corpo é mais corpo quando se deita”, se estendido, sob ele, um abismo como chão – o aberto do livro. Interpelemos, pois, junto a Janaina de Paula, o livro, a desmedida do livro, onde a dispersão encontra, num só tempo, pouso e voo. Com delicadeza torvelinha, esta escrita toma a escuta como gesto crítico: “já não consigo separar a leitura da escrita”, escreveu Maria Gabriela Llansol; “já não consigo separar a leitura da escuta”, escreveria Janaina, ao acompanhar Llansol, sem, contudo, ferir sua solidão.
Lemos o livro que dobra suas páginas, fazendo cair aquilo que é a potência de sua abertura: a obra. É então que um corpo acontece, no átimo em que se cose o infinito, plissado e replissado pelas mãos daquela que já passou por lá e sabe que “lá” só o canto é possível, quando o corpo da voz emerge, quando o corpo se profere, reduzido a um resto. Dobremo-nos, então, sobre o “cor’p’oema Llansol” como escrita-escuta capaz de aproximar o longínquo sem engessá-lo num novo paradigma e sem “tirar a mudez da palavra escrever”. Aí, não só o amor se abre para fora de si mas, como afirma a autora, ao flexionar o texto de Llansol, “o livro se abre para fora de si”. Isso só acontece porque algo do amor se faz escrita, no libidinoso corpo de suas letras, no suave trabalho com a frase, quando se pode dizer sim à leitura, sem jamais interpretá-la. Como um dom que se recebe e se perde a cada vez – o dom da leitura –, esse método não traz consigo um receituário, um manual, mas uma experiência que abriga os restos de uma travessia: “Na solidão do seu canto, parecia dançar destroços”.”   – Maraíza Labanca


paula-vaz
A outra língua: amor
Paula Vaz
Cas’a’screver
Belo Horizonte, 2016

“Nessa língua, Paula escreve, como Manoel de Barros, “uma ruína para a palavra amor”: “apaga a velha sina, que recomeça”; acolhe o idioma de todos os poetas que lhe atravessam os passos, os dedos, o corpo, para encontrar a matéria que lhe permite escrever em nome próprio, nome outro, nome-amor. Recebo o gesto, a concha musical, o que nela ressoa do tempo, antes do antes, do antes, “e a escrita cai a nossos pés, tão secundária” (Maria Gabriela Llansol).
Recebo, acolho e sopro: A outra língua: amor.”  – Janaina de Paula


naves
Por não saber fotografar um pássaro
Fláviad’aves
Cas’a’screver
Belo Horizonte, 2016

“No resto da escrita, recolho o verso daquela que caminha pelas ruas de uma cidade perdida, tendo na alma a lentidão dos passos e a dispersão do olhar. Recolho dela, mulher avoada, senhora d´aves, o verso que ressoa como canto doce, certeza do poema: “não se pode ter as asas do céu só para si”. Não se pode capturar o azul, o aberto, o voo, o movimento livre das coisas vivas que passam, fazendo da amplitude do céu sua “morada sem exílio”. Não, não se pode… ela diz… e escreve.
Não se pode reter o instante, fechá-lo num único gesto, congelá-lo numa imagem suspensa no tempo. Não, não se pode. Não se pode fazer imagem do acontecimento, seu momento de pouso e de ida. O pássaro passa rápido como o poema e deixa um rastro de lembrança dispersa no ar. E ela, essa mulher que não sabe fotografar um pássaro, segue a espessura granulada das ruas da cidade, guardando nas mãos a certeza de um abandono do saber. Por não saber, ela recolhe: louças, tranças, vestes, lenços, bicas, distâncias, desejo, flor. Por não capturar, ela revela: o massacre em 68, as vidas soterradas em 86, a verdade de um mundo sem estrutura de ficção, o silêncio da noite na manhã de cada escrita. Por não saber fotografar, a ave acontece nuvem, e ela faz chover letras orvalhadas no céu de escrita.”   – Janaina de Paula


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Canguru Preguiça
Vera Valadares / desenhos de Julia Panadés
Cas’a’screver
Belo Horizonte, 2015

“Era eu um bicho preguiça?
(Eles gostam de ficar de cabeça para baixo…)
E esse mundo do avesso?
E o canguru? De onde saiu esse canguruuu?”  – Vera Valadares


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Minotauro: o insuportável desígnio
Ruth Silviano Brandão / desenhos de Julia Panadés
Cas’a’screver
Belo Horizonte, 2015

“Ao retornar ao labirinto do Minotauro e seu Insuportável desígnio, após algumas modificações na primeira edição do livro – Aporias de Astérion –, e acompanhada agora pelos desenhos de Julia Panadés, Ruth Silviano Brandão nos reenvia à estranha casa desse ser hibrido, que traz a maldição e o aberto de uma ferida sem fim. Sua poética deixa ver a existência de realidades distintas abrigadas no mesmo corpo: a vida, a morte, o vigor, o horror, o movimento intenso, a parada abrupta, a queda vertical. Tecendo com Julia o lugar dessa queda, e o ritmo do espanto diante de um acontecimento impossível de narrar, esta escrita mostra que o silêncio feminino – guardado nas palavras e nos desenhos – é a outra dimensão da morada “do que se esconde do amor, seu atributo mais negado, o tormento que se cava na carne, em pontos agudos em que o metal dos punhais se fixam em fúria de dor e gozo”.”   – Janaina de Paula


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Maria Lua da minha escuridão
Lucia Castello Branco / desenhos de Maria José Boaventura
livro e áudio
Cas’a’screver
Belo Horizonte, 2015

Duas meninas e uma barca, também menina, para atravessar os mares escuros, os amores menores, as pequenas frestas de luz do dia. Duas meninas a contemplar o tempo parado, na distração das histórias contadas em noite de lua cheia, quando a barca se deixa invadir pela luz e se põe a mover em direção às imagens pobres de exuberância e repletas de sonhos. Duas meninas e uma barca para guardar o que resta de um encontro e seu silêncio coberto de águas.   – Janaina de Paula


Primeira pessoa - Fátima Pena
Primeira pessoa
Fátima Pena
Cas’a’screver
Belo Horizonte, 2015

Eis-nos diante de um livro-pentimento, que nos permite ver, e ver de novo mais tarde, um rosto que se desenha. E um rosto que se desenha em pentimento é sempre um rosto devastado. “Esta sou eu” – ela revela – “alguém que faz caminhada dentro de casa”.
Este livro é um espelho d’água. Aí podemos ver um rosto antes do aparecimento do espelho. Um rosto nu. Quando vamos a seu encontro, é a íntima interioridade que encontramos. E seu claro enigma. “Nada existe que seja universal, só o singular existe. Afirmar isso é ver em tudo a sua opacidade, o seu enigma, aquilo que o constitui como exemplo, mas não exemplo de outra coisa ou exemplo a seguir.”
Por isso, após a leitura deste livro pentimento-pavimento- movimento, só nos resta o exemplo que não podemos seguir. E podemos, então, afirmar, com Maurice Blanchot e Fátima Pena: “Se começas, estás perdido; se paras, estás perdido”.
Diante dessa sentença, resta-nos, por fim, não parar. E manter o começo prosseguindo. Fátima nos aponta o caminho: “Tudo vive quieto pela casa, representantes silenciosos do tempo”. É este o trabalho silencioso das incontáveis horas. Afinal, como já assinalou Picasso, aqui mesmo, na superfície do rosto de Fátima, “o artista leva muito tempo para tornar-se jovem”.   – Lucia Castello Branco


capa rés
Rés: o livro das contaminações
Erick Costa e Maraíza Labanca
Cas’a’screver
Belo Horizonte, 2014

“Rés: adjetivo comum de dois gêneros; raso, rente. Eles dois, ela e ele, comuns de dois gêneros, iguais em substância, fazem, do resto, o poema. Quem o poema, quem a poesia? Rés: substantivo plural, comum aos dois gêneros; o réu, a ré, ambos rés. Eles dois, ele e ela, entregam-se, sem resistência, à vertigem do poema. Quem os absolve? Ela pede: “Venha, poema-metade, e penetre-fenêtre o meu fechamento”. O poema, rés, resiste à penetração, à interpretação. E indica uma direção para se perder: “Sono sem pálpebra, objeto sem borda: mapas, mapas, mapas”. Rest: por uma letra, a pausa, o descanso do resto. Resto: por duas letras, a sobra, o vestígio. Resta a coisa – res – a coisa literária do poema, ali, opaca, em três letras, por um triz. Resta a restante vida, metade de nada, afinal: resina, retina, feminina-masculina cicatriz.”   – Lucia Castello Branco

“(Subst. Masc. Singular) Anagrama opaco do ser, com acento no é e nada mais;
1. Ou menos, ainda (Subst. Fem. Plural): palavras que minam abandono como contas soltas no chão – não por acaso, nem sem o acaso;
2. Ou seja (Subst. Neutro): superfície que guarda o silêncio alheio, como pétalas dentro de um livro;

3. Ou talvez (menos que um substantivo): partícula, prefixo de res-ponsabilidade, por ocupar um lugar na língua do outro – o lugar no corpo seria a boca, se os olhos não se contaminassem com a velocidade da luz.
Outro – Livro ouriço, diria (se fosse mineral): Ouro Isso.”   – Vania Baeta

“Traço da queda, corpo acontecimento, gesto plissado das mãos que desfiam céus.
Anagrama perfeito de ser, réstia de nada, ofício dos olhos que percorrem a poeira da palavra em estado de perda: um quase nada da língua.
Paisagem alargada em três letras, resto do dia com “sua medida de sono”.
De vez em quando, o mundo começa num poema: Rés.”   – Janaina de Paula


CapaPaulaVaz - site
Não se sai de árvore por meios de árvore – Ponge-Poesia
Paula Vaz
Cas’a’screver
Belo Horizonte, 2014

“Os poetas fazem ressoar suas vozes em constelações que brilham e criam um significanto que é único e múltiplo. Deixe meu livro ressoar, me disse Paula Vaz, entre por alguma porta, nas pautas de sua música, das imagens nascidas de minha leitura com Francis Ponge – o poeta que escreve o tempo todo sobre um objeto que buscamos apreender e que nos escorre das mãos: seja ele a escrita ou o amor. Mas o amor da letra não escorre das mãos do poeta, não escapa, pois a poesia se faz assim, de outras vozes, outras folhas, a folha. Com Ponge, Paula fez letra/carta de amor poético.
É o eterno renascer mítico, místico, ritualístico na captura de palavras -objetos-coisa que se disseminam nos rastros escritos, instalam a diferença e incidem nas vidas-escritas. Escrever com um poeta é fazer poesia-mais, mas também concha, casa, receptáculo, morada, ressonância de ouvir o mundo, em suas mil folhas que fazem reverberar em todos os verdes da vida, essa que se escreve e inscreve o sujeito que faz poesia de seus fios, redes, e também fendas, rasuras e tropeços. Frestas.
Através do Poeta-Outro, vejo o mundo, revejo-me na construção de minha/tua casa-mundi-escrita, meu mapa vegetal, pensamento antes
informulado, antes indecifrável; agora onde meu rosto se desenha, no alumbramento, parece dizer Paula Vaz.”   – Ruth Silviano Brandão


capa Florarvore site
Florarvore no jardim da solidão
Flavia Drummond Naves
Cas’a’screver
Belo Horizonte, 2014

“Algumas palavras nos chegam assim. Trazidas um dia, por uma das inumeráveis surpresas da vida. Recolhidas de um jardim distante, coberto de terra, musgos, raízes tecidas como colcha de renda cada vez mais rara, lembranças esquecidas no grão da folha em desalinho, essas palavras nos chegam como verbo intransitivo anunciando um canto de solidão. Na queda do acento: Florarvore. Sim. Torna-se florárvore. Florarvore-se. Flora em estado de grão, tronco que guarda cada uma das linhas em desatino, o som mudo dos cômodos, o segredo de um nome adormecido na mulher. Árvore, flor, mulher. Três estados vegetais. Seria preciso conhecê-los. Esse estado. Para fazer dele um corpo só de poesia.
A mulher dá mais um passo. É larga a travessia. É estreito o caminho. A língua desdobra-se no pedaço obscuro de um amor que se fragmentou, na transpiração de um gozo úmido que amanhece escrito, no jasmim orvalhado de saudade. Florarvore. Será preciso descer mais um pouco. Tocar o chão. Recolher dos galhos mais altos o conhecimento vegetal, o gosto do barro, a clorofila – “primeira matéria do poema”.
Ela desce. Transpõe o limiar. Toca o barro e costura, com letras mareadas, o nome e seu avesso, as águas, os veios, três mil raízes e uma única réstia de luz. A árvore lhe esculpe os olhos. O barro lhe desenha o corpo e toma a forma que ela quer, “sem que ela saiba estar fazendo apenas o que o barro quer”.
A mulher dá mais um passo. Alarga o caminho. Tem a arte de jardinar.
Veja, “respira como árvore”. A “ouço ofegar como um rumorejo de folhas”.
Reconheço um nome esculpido na trama do vegetal lenhoso.
Algumas palavras nos chegam assim: saídas do barro, secam imediatamente.
Seu corpo vegetal nos aterra.
Enquanto ela, Flávia, florarvora no jardim da solidão.
Um corpo todo de árvore me fiz.”   – Janaina de Paula


capa poemario 1 site
Poemario
Raquel Junqueira Guimarães
Cas’a’screver
Belo Horizonte, 2014

“Imbuída de ler o acaso no poema-rio de Raquel, quis juntar, com ela, mares separados por uma faixa de areia. Como se fosse possível existir um tômbolo nos ângulos dos letreiros subterrâneos do Parque – aquele que guardou a tarde inteira de sua visão.
Imbuída de ler o acaso no mar impresso da palavra, tomei de empréstimo a voz que leu o que Javier Heraud teria posto num poema – e “El Rio” apoiou nossos olhos no mesmo instante em que nossas mãos folhearam livros de arte achados na rua, assim, de graça.
A voz era grave e conhecia seu rastro sobre as águas. É que a visão de Raquel já previa o tempo, as estações, a vastidão, o ínfimo, a gota, as zonas geográficas e de silêncio d´água. Previa o “beijo branco do sal”, os ossos que “olham o coração por dentro”, previa o lago e o azul do céu.
Imbuída de ler o acaso das águas lançadas em “Poemario” retomei a leitura e começo pelo fim. “E pensar que tudo termina em uma gota de água/em um grão de areia/em um fio fino de letra por escrever/O resto agora é poesia.” Porque tudo termina – na gota, no grão, no fio fino – quero ler essas águas luminosas. Porque tudo começa – e de depois para antes: na água, na areia, na letra – principio a ler a visão de destino que a “faz foz”. Para ler, outra vez, o que não se escreve – ler aquela visão na tarde subterrânea, ler o chamado do mar à beira do lago, ler um homem triste que esgota suas palavras, ler uma mulher que escoa, uma praia rasa, o mar casado, um Rio, ler planície de água pura. Ler o resto agora.”   – Cinara de Araújo